Por um mundo com menos "outros"

Não acho que a capacidade de aceitar o outro seja algo inerente ao ser humano. Diferente da tendência a querer abraçar e cuidar (e curtir fotos no Facebook) de bebês e gatos, o ser humano em geral não sai de fábrica (nem entra na vida adulta) pronto para aceitar outros seres humanos que vê como "diferentes" dele.

Ao contrário, parece que o ser humano tem um talento especial para classificar, agrupar, nomear e assim mais facilmente apontar diferenças entre si e os outros.

Se a corda pele do outro é diferente, ele é diferente de mim. Se eu tenho mais dinheiro no banco e bens do que o outro, ele é diferente de mim. Se eu pratico uma religião e ele pratica outra, ele é diferente de mim. Se eu tenho uma orientação sexual e ele tem outra, ele é diferente de mim. Se eu venho de uma região do país e ele de outra, ele é diferente de mim. Se eu tenho um sotaque e ele tem outro, ele é diferente de mim. Se eu sou magro e ele gordo, ele é diferente de mim.Se eu apoio um partido político e ele outro, ele é diferente de mim.

Se todas essas classificações tivessem um propósito meramente intelectual (digamos para enriquecer os debates e para que pudéssemos entender melhor as diferenças sociais, culturais e de outras naturezas entre os seres humanos), e acima de tudo nos víssemos como iguais, não haveria nenhum propósito esse texto.

Mas o que ocorre de forma viciante e doentia é que todas essas classificações servem para criar cada vez mais "outros" entre os seres humanos. E se aquela pessoa ao seu lado é um "outro", você talvez não precise se importar com ela; pode ser que você torça o nariz para a opinião daquela pessoa, afinal ela é diferente de você; você provavelmente não se importa com as causas que aquela pessoa defende, elas não dizem respeito ao seu grupo, você pode no máximo ficar indiferente; se aquela pessoa está passando por maus momentos, também é difícil se importar, ela é tão diferente de você. Essa é a versão "passiva" da "outrificação" (acabei de inventar a palavra, significa esse processo que descrevi, de criar outros, de multiplicar as diferenças). Existe também a versão violenta: para pessoas desequilibradas e agressivas, quanto mais "outros" a sociedade estimular, mais ataques violentos preconceituosos, que podem terminar em mortes e destruição de famílias acontecerão.

Apontar diferenças e sutilmente perceber o outro como "diferente de mim" pode parecer algo inofensivo. Mas a multiplicação de "outros" é um primeiro passo para um mundo com cada vez menos solidariedade. Quanto mais "outros" no mundo, menos "nós" vão existir. Quanto mais "outros", mais preconceitos embutidos, mais isolamento, mais barreiras, mais tensão social, mais violência.

Devemos também lembrar que o ser humano, como bom mamífero que é, tende a se preocupar com o seu "grupo", com aqueles entes que compõem o seu "nós". Hoje em dia, para quem vive em cidades grandes (ambientes altamente especializados, individualistas, competitivos, racionais e consumistas), o "nós" costuma ser a própria pessoa, sua família próxima e seus amigos mais próximos. O resto são "outros", não entram na zona de preocupação, na zona de interesse, na zona de vontade de entender, se envolver.

Não deveríamos ensinar nossos filhos a ver tantos "outros". É possível ver mais "nós", é possível ver menos diferenças, menos barreiras. É possível ter mais interesse em se envolver com outras questões sociais, culturais, políticas diferentes daquelas que são objeto de interesse de nossa própria "panelinha".

A globalização aconteceu, acontece e se intensifica. A internet nos deixa ver fotos em redes sociais de uma pessoa do outro lado do mundo que nem conhecemos. Sabemos notícias de (quase) qualquer lugar do mundo segundos depois de o fato acontecer. Podemos nos agrupar e nos expressar (em alguns países no mundo) com mais facilidade do que nunca.

Tenho esperança de que a rede, essa coisa que virtualmente nos uniu e nos chamou coletivamente de "internautas", possa nos inspirar a reduzir barreiras e classificações. Eu sinceramente vejo um pequeno movimento nessa direção, mas esse assunto fica para um próximo texto.

Quanto mais "nós" tivermos, mais felizes seremos como sociedade no futuro.

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Luiza S. Rezende
Advogada empresarial especializada em startups