A História da Menina-Gato

Júlia desde que nasceu era muito carinhosa com seus pais. Com um pouco mais de um mês de vida já agarrava o dedo de sua mãe com uma de suas mãozinhas e com a outra acariciava-a usando os dedinhos e olhando fixamente para os olhos da mãe. Sorria, sua expressão era a de alguém adulto, como a cara das mães quando olham para seus bebês.

Quando bebê Júlia não chorava muito, e não reclamava para comer. Ela gostava de ficar no berço observando os objetos que lhe davam. Gostava especialmente de gatos, sempre que lhe davam gatos de pelúcia ou de qualquer outro material para brincar ela ficava muito mais feliz que o normal, e não queria largar o brinquedo. Gostava tanto que seus pais lhe deram vários gatos, de vários tamanhos e formas, e ela os colecionava primeiro em volta do berço e depois, conforme o volume de gatos aumentou, em prateleiras no quarto.

Sua fixação por gatos só aumentava. Ela só gostava de livros e filmes que tratavam de gatos ou tinham gatos como personagens. Seus pais interpretavam aquilo como uma futura bióloga ou veterinária especializada em gatos e achavam bonitinho. Foram no pediatra verificar, e concluíram que quando ela completasse 5 anos lhe dariam um gato de estimação.

Júlia aprendeu a falar e sua doçura, antes representada por gestos, olhares, sorrisos e toques, passou a ser também por meio de palavras. Era muito educada e fazia questão de tratar a todos muito bem, sempre usando palavras carinhosas, não importava quem era a pessoa. Tratava tão bem sua babá que ela pediu para sair; disse que gostava demais daquela menina e era melhor cortar a relação agora do que deixar o apego aumentar.

Quando foi para a escola os comentários dos professores eram só elogios, dizendo que ela se destacava na escrita, no desenho, no relacionamento com os colegas, na música, nos esportes, enfim, tudo o que era proposto a ela era realizado com grande desenvoltura e, além disso, o que talvez não fosse esperado de uma menina de 4 anos, com muita educação, maturidade e especial doçura.

No dia de seu aniversário de 5 anos, seus pais quiseram fazer uma festa especial e escolheram o tema "gatos". Todo o ambiente estava decorado com gatos e ela foi fantasiada de gatinha. Todos os convidados deveriam também ir vestidos de gato e com maquiagem de gato, para deixar tudo mais realista.

Após a festa, na manhã seguinte, os pais de Júlia trouxeram-lhe o que secretamente já haviam prometido a ela: um gato de estimação. Júlia quase não conseguia aguentar de tanta felicidade! Deu o nome da gata de Caty e não queria mais sair de perto do animal. Durante o dia queria que a gata fosse com ela para onde fosse, e à noite queria dormir abraçada. Seus pais ficaram muito contentes e estavam certos de que o destino da menina tinha a ver com gatos, tamanha era a paixão que ela nutria por aqueles seres.

Depois de algumas semanas seus pais começaram a notar um comportamento estranho em Júlia. Ela estava um pouco mais quieta que o normal, pálida e mais de uma vez observaram-na andando em quatro patas ao lado de Caty. Na hora repreenderam-na, dizendo que aquilo era para animais e não para ela. Disseram que se ela fizesse mais uma vez aquilo, não teria passeio de férias aquele ano.

Nos próximos dias, apesar de não estar andando em quatro patas, Júlia evitava sair do quarto e queria apenas ficar brincando com Caty. Um dia, enquanto sua mãe lhe penteava o cabelo, notou que alguns fios de pelos estavam começando a aparecer em sua bochecha e que o nariz da filha estava ficando em uma coloração diferente do resto da pele. A mãe de Júlia ficou muito assustava e marcou um médico para a semana que vem, impedindo a filha de se aproximar da gata, pois achou que poderia ser fruto de alguma bactéria que vinha do animal.

No dia seguinte, em que Júlia ficou pela primeira vez na vida algumas horas longe do animal, quando a mãe foi acordar a filha na cama ela ficou totalmente paralisada: Júlia estava desfigurada, apenas as roupas continuavam as mesmas, tudo havia mudado. Júlia estava coberta de pêlos, seu rosto era semelhante ao de um gato, restavam poucos fios de cabelo, ela tinha patas e não pés e mãos, seus dentes estavam mais pontudos seu olhar já não era o mesmo. Ela havia se transformado em um gato.

- Júlia, fala com a mamãe. O que aconteceu?

- Mãe, essa sou eu de verdade. Nunca fui humana.

- Claro que você é humana, minha filha. Você é a minha filha.

- Sou sua filha, mas não sou humana. Peço por favor que me deixe ir embora e nunca mais voltar. Percebi que a vida de humanos não tem nada a ver comigo. Quero ir embora com Caty viver em um sítio abandonado no interior. Mais de 30 gatos vivem lá e é para lá que quero ir.

- Tudo bem, minha filha, se esse é seu desejo, eu entendo. Mande lembranças quando puder.

- Sim, se eu tiver vontade mando. Por favor, tire essas roupas de mim.

A mãe de Júlia tirou o pijama e as meias da filha, que agora poderia andar melhor em quatro patas. Caty veio ao lado de Júlia e ambas continuaram a caminhar em direção à porta.

Quando estava perto da porta, Júlia virou a cabeça em direção à sua mãe apenas uma vez, mas não havia qualquer traço humano em sua expressão. Ela deu um miado longo e agudo e saiu.

Os pais de Júlia nunca mais tiveram notícia dela. Algumas vezes a mãe sonhava com gatos, com um grupo grande de gatos vivendo em uma sociedade organizada em um sítio. Nesse sonho havia um rei e uma rainha liderando a comunidade, e havia muita solidariedade entre todos que viviam ali. Quando a mãe acordava, não sabia se aquilo era verdade ou mentira, então ligava a televisão, para esquecer.

Esses sonhos da mãe de Júlia começaram a virar pesadelos cada vez mais terríveis, envolvendo mortes, ataques e grandes gatos, do tamanho de elefantes. Ela então decidiu ir a um médico para que ele a ajudasse. O médico disse que todos esses tormentos noturnos deveriam ser o resultado de estresse e noites mal dormidas, e sugeriu que ela relaxasse mais durante o dia.


Certo dia, enquanto o pai de Júlia trabalhava, a mãe de Júlia foi dar um passeio em um grande parque da cidade, para acalmar e ver se fazia a crise de alucinações ir embora. Quando voltou, assim que fechou a porta, seis gatos do tamanho de tigres saíram de trás dos móveis prenderam-na nas poltronas da sala. Disseram que estavam precisando de mais ração, leite e novos alojamentos no sítio do interior e só iriam parar de gerar pesadelos se ela enviasse cem mil reais para a conta de banco que seria enviada por email. Com muita habilidade nas patas eles a desamarraram e saíram pela janela.


No mesmo dia à noite ela contou ao marido o que tinha acontecido e ele achou que ela deveria procurar outro psiquiatra e afinal resolver essas alucinações. O casal estava jantando na mesa e ligou a televisão: noticiários do mundo inteiro estavam mostrando imagens de gatos imensos, do tamanho de elefantes, destruindo as cidades e engolindo tudo o que viam pela frente.


- É o fim - disse a mãe de Júlia.


- Veja, é a Júlia ali naquela imagem da praça da Sé. Ela está usando aquele colar que demos a ela quando ela nasceu. Ela talvez possa nos ajudar a entender.


***


No dia seguinte o casal acordou cedo e foi em direção ao centro da cidade. Não havia mais ninguém, estava tudo devastado. Começaram a gritar "Júliaaaaa", para ver se atraíam a atenção dela. Até que um gato imenso, do tamanho de um dinossauro apareceu na frente dela: 


- Sim, o que vocês querem comigo?


- Queremos que você nos explique o que está acontecendo. Por que estão destruindo tudo?


- Nós somos a nova espécie dominante, mãe.


- Como assim? Nós humanos sempre fomos muito mais evoluídos do que gatos. Vocês ainda andam em quatro patas, não falam, não se expressam, não criam.


- Essa é a visão de vocês, mãe. Não é a nossa visão. Nós achamos vocês os seres menos evoluídos de todos. Temos muita pena de vocês e minha espécie não pretende deixar nada do que foi construído por vocês em pé. Vamos começar tudo de novo.


- Como podemos ajudar, Júlia? Nós aceitamos vocês como líderes, queremos apenas sobreviver.


- Nós não temos interesse em ter qualquer relação com vocês, mãe. Já pedi para que ninguém os devore ou destrua, porque são meus pais, mas também não quero que vocês nos atrapalhem.Vocês podem vagar por aí e viver como quiserem, mas por favor não falem comigo mais, pois me fazem perder tempo, temos um grande império a construir. E peço desculpas pelos bandidos que te atacaram recentemente, mãe. Eu não os conheço, eles falaram do sítio, mas queriam dinheiro para comprar drogas, ainda bem que você não deu. Já os expulsamos daqui e esperamos que os genes deles nunca mais voltem a aparecer. Adeus.


***


O pai e a mãe de Júlia tomaram a decisão de caminharem até a reserva de Mata Atlântica mais próxima e criarem uma casa para eles lá, para viverem em paz até morrerem.


Comiam muitas frutas, caminhavam, foram felizes. E morreram.


***


E foi assim que a espécie humana desapareceu do planeta Terra e, até hoje, dezesseis milhões de anos depois, é governada pelos gatos e outros felinos que descenderam dessa primeira fase de felinos gigantes mutantes.


Durante o reinado da Menina-Gato ela eliminou toda e qualquer construção humana do planeta, fazendo com que todos os ecossistemas naturais da Terra voltassem a florescer, deixando o planeta ainda mais belo do que na época dos dinossauros.


As próximas gerações mantiveram a mesma mentalidade e parecem cada vez mais conectados com energias interplanetárias. Diversos seres de outros planetas já aterrissaram na Terra com a intenção de entrar em contato e fazer parcerias com os felinos-terráqueos. A Terra hoje é vista no Universo inteiro como uma referência, principalmente nos níveis de conexão corpo-energia.


Os felinos não conhecem a fala, o pensamento, a comunicação verbal, o conceito de dinheiro, de propriedade ou de família. Todos apenas consideram-se almas amorosas a transitar pelo planeta Terra, com o objetivo de estabelecer contatos energéticos transcendentais produtivos com outros seres, principalmente de outras espécies e de ouros reinos.


Esses gatos até hoje (e da sua maneira) consideram como sua única Deusa a Menina-Gato, a primeira espécie de mutante que deu origem à sua linhagem e que possibilitou que o planeta Terra fosse, para sempre, salvo das forças humanas.


***


Se você quer ficar sabendo quando os próximos vídeos forem lançados, inscreva-se no meu canal do YouTube. Se você quer receber os próximos posts deste blog por email, inscreva-se aqui.

Na coluna da direta deste blog você encontrará os posts mais populares, assim como o arquivo com todos os posts publicados. Se você sentiu falta de algum tema, escreva-me

Até a próxima!

Luiza S. Rezende
Advogada empresarial especializada em startups


gato, história, menina, menina-gato, Luiza Rezende
Foto: Zoonar/Erika Utz/CrayonStock